Le point sémiotique

Da semiótica padrão à semiótica engajada

Eric Landowski

Paris, C.N.R.S. — São Paulo, PUC-CPS Vilnius University, Greimo Centras

Acta Semiotica, VI, 10, 2026
DOI: 10.23925/2763-700X.2026n10.77271
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No dia 20 de novembro de 2025, o Programa de Semiótica da Universidade de Vilnius organizou uma Jornada (concluída à noite por uma festa) para celebrar o seu vigésimo ano de ensino e pesquisa. Foi uma boa oportunidade para examinar o modo como a semiótica greimasiana se desenvolveu na Lituânia durante as últimas décadas e discutir novas orientações possíveis — em uma palavra, para “faire le point (sémiotique)” a propósito das perspetivas passadas, presentes e futuras. O texto que segue reproduz a contribuição do autor a essa reflexão comum.

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O Programa de Semiótica da Universidade de Vilnius celebra hoje seu vigésimo aniversário. Greimas certamente se alegraria. Tal comemoração demonstra que, apesar de um exílio quase vitalício, seu esforço para implantar a semiótica estrutural em seu país de origem foi bem-sucedido. Kęstutis Nastopka, Saulius Žukas e Arūnas Sverdiolas, os três pioneiros com quem manteve estreita relação até sua morte em 1992, não apenas asseguraram a presença do pensamento semiótico no cenário intelectual lituano por meio de seus escritos e traduções, da criação de uma editora e de um periódico de semiótica, mas, talvez acima de tudo, formaram, como uma segunda geração, a equipe pedagógica agora responsável por este Programa. E, em vez de propor a semiótica como disciplina optativa em algum departamento de linguística, literatura, estudos culturais ou comunicação, como costuma acontecer nos currículos universitários, eles a introduziram, desde o início, como uma disciplina autônoma e uma teoria (quase) autossuficiente. Como resultado, uma terceira geração de pesquisadores lituanos está atualmente integrando a comunidade semiótica internacional. Desse ponto de vista, o Greimo Centras é qualitativamente comparável a grandes centros como os de Bolonha, fundado por Umberto Eco, Palermo, Roma-La Sapienza, Turim ou São Paulo (cujo Centro de Pesquisas Sociossemióticas celebrou seu 30º aniversário em 2024). Todos compartilham as mesmas ambições: aprimorar a teoria e formar semioticistas. Missão cumprida!

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Mas formar semioticistas para o quê? Com que propósito no contexto sociopolítico altamente problemático de hoje? Gostaria de mostrar que a semiótica, como concebida aqui, é mais do que apenas uma disciplina acadêmica. Ela tem a ver com a vida real.

Ao contrário do que se costuma dizer, ela não é mais apenas um método sofisticado para analisar textos, como foi em um primeiro período. Hoje em dia, além dos textos, nossas investigações abordam práticas sociais e tentam dar conta da experiência vivida. Ao fazê-lo, como todos os cientistas sociais, estamos envolvidos com a matéria que analisamos. Consequentemente, embora obviamente tentemos ser os mais rigorosos possível na construção de um aparato coerente de conceitos teóricos, metodológicos e descritivos, não pretendemos dar uma visão puramente neutra da sociedade. O objetivo final dos modelos que elaboramos não é somente ajudar a compreender melhor o mundo em que vivemos, mas também nos permitir agir de forma mais adequada na vida pessoal e em relação ao ambiente social e natural. Em outras palavras, nosso trabalho é motivado por preocupações tanto morais quanto concretas e, em última análise, é orientado politicamente. Como sociosemioticistas, devemos assumir tais compromissos. Até penso que é isso que torna nossa disciplina digna de ser exercida.

 

Para endossar e implementar tal ponto de vista, é necessário, antes de tudo, uma ideia clara sobre nosso objeto de estudo, o sentido. Mais precisamente, o sentido como um efeito produzido e apreendido na interação. Este ponto deve ser enfatizado porque uma das principais características dos modelos greimasianos e pós-greimasianos — sua dinamicidade (uma qualidade que diferencia nossa abordagem da perspectiva tipológica da semiótica peirciana) — decorre da conexão que sempre estabelecemos entre essas duas noções — sentido, interação —, embora a maneira como delimitamos o que elas abrangem respectivamente tenha evoluído com o passar do tempo e o surgimento de novas questões. Vou evocar o ponto de partida dessa evolução e seu presente — provisório — ponto de chegada (e, finalmente, acrescentar algumas considerações mais gerais): por que e como passamos da gramática narrativa padrão, que remonta à década de 1970, para o modelo sociosemiótico atual articulado em torno de uma pluralidade de regimes interacionais de sentido? 1

1 Veja respectivamente A.J. Greimas e J. Courtés (1979), Dicionário de semiótica, trad. A. Dias Lima et al., São Paulo, Cultrix, 1983, reed. São Paulo, Contexto, 2008; E. Landowski, Au risque du sens. Essais de socio-sémiotique IV, São Paulo, Estação das Letras e Cores, 2025; id. e J.-P. Petitimbert, “Risky Heuristics”, in P. Cobley (org.), Semiotics and its Masters, Berlin, De Gruyter, 2023.

1. Tudo se origina da decisão de Greimas de colocar a narratividade no centro de sua teoria enquanto princípio geral de inteligibilidade. Essa escolha fundamental ainda orienta a maior parte de nossa pesquisa e, como tal, não precisa ser reexaminada. Mas uma segunda escolha, destinada a concretizar esse princípio geral, logo apresentou um problema, a saber, a introdução de um “esquema canônico” que serve como um “modelo de referência ideológico” que supostamente articula qualquer narrativa concreta2.

2 Cf. Dicionário de semiótica, op. cit., entrada “Narrativo”, §8, p. 333.

Apresentado como um “quadro formal no qual o sentido da vida está inscrito”, consiste em uma sintaxe que regula a circulação de “objetos” entre “sujeitos”, eles próprios guiados por sua “intencionalidade”. Um sujeito, segundo sua definição semiótica clássica enquanto actante sintático, é um agente antropomórfico que pretende apoderar-se (entrar em “conjunção” com) qualquer elemento que possa desempenhar o papel sintático de um objeto-actante digno de aquisição, devido ao seu valor intrínseco (sua utilidade ou sua atratividade) aos olhos do referido agente. Assim, se bens de consumo e riquezas acumuláveis (a começar pelo dinheiro), bem como pré-requisitos “modais” para uma ação eficiente (como conhecimento ou poder), devem passar de mão em mão, é porque, segundo essa visão “estandard”, somente sua busca, sua troca, sua circulação e, finalmente, sua posse supostamente podem impulsionar e orientar a ação, dando, assim, um sentido à vida.

A carga ideológica desse “quadro formal” é dupla. Um aspecto relaciona-se à filosofia política, o outro à economia política. A visão que ele propõe da vida em sociedade é primordialmente democrática. Se todos são motivados por uma vontade clara, livre e bem informada, as relações entre os sujeitos podem ser reguladas por meio de procedimentos de negociação que resultem em acordos específicos quanto às condições para a troca dos objetos de valor desejados. Isso define o regime interacional conhecido como “manipulação”, um metatermo mal escolhido, pois suscita suspeitas embora designe precisamente o que essa gramática apresenta como mais positivo em termos sociopolíticos, uma vez que privilegia, em todos os domínios (inclusive na alocação e no exercício do poder), a discussão livre (vista como uma dialética entre “fazer persuasivo” e “fazer interpretativo”), a razão e o contrato, em oposição ao uso da força ou de formas demagógicas de apelo aos afetos (paura, ódio etc.) e ao puro acaso.

 

Mas o mesmo esquema também pode ser interpretado como a expressão de uma visão fundamentalmente utilitarista que tende a reduzir todas as interações, tanto entre parceiros imediatos quanto com o mundo em geral, a manobras calculadas visando a alguma forma de lucro. “O que é essencial para o homem”, escreveu Greimas, “é a busca de valores, sua apropriação, sua atribuição”3. Essa visão não contradiz a anterior, mas radicaliza uma de suas possíveis extensões. Ela tende a reduzir a intencionalidade que motiva os sujeitos interagentes — seu desejo existencial de ser — a uma busca obsessiva por posse, à simples ânsia de ter. Consequentemente, entre sujeitos (sejam eles individuais ou coletivos), a única razão para se engajar em relacionamentos se resume à esperança de obter (em princípio, por meio de acordo) algum objeto específico considerado digno de ser buscado (riqueza, poder, honras, conhecimento, serviços ou favores específicos, mercadorias comuns etc.), ou à antecipação de vantagens materiais ou ganhos simbólicos esperados da troca de tais objetos. Nessas condições, a sociedade assume a forma de um vasto mercado onde os bens passam de proprietários-detentores “em estado de conjunção” para proprietários “virtuais”, donos na espera, ávidos por apropriação. E, nesse mesmo contexto, o próprio mundo natural aparece como um mero repositório de recursos econômicos a serem explorados, independentemente dos danos colaterais previsíveis.

3 Du sens II, Paris, Seuil, 1983, p. 169. Trad. port. D. Ferreira da Cruz, Do sentido II, São Paulo, EDUSP–Nankin, 2014.

Em suma, como Jano, o sujeito semiótico inicialmente visto como um democrata perfeito desvenda, contrabalançando, uma outra face: a de um frio calculista e um consumidor insaciável. Provavelmente não é coincidência que esse esquema “canônico” tenha sido desenvolvido durante as décadas de 1960 e 1970, enquanto o consumismo de massa se espalhava rapidamente. Embora muitos semioticistas o considerem universalmente válido, ele está, na verdade, intimamente ligado a uma forma particular (ainda que imensamente difundida) de pensar nos âmbitos filosófico, jurídico, econômico, social e, em última instância, político. Pode-se até acreditar que o sujeito bifacetado que ele retrata foi moldado em sua forma específica para dar suporte ideológico à pretensão de nossa sociedade de combinar o reinado dos negócios e seus rentáveis deals (como se diz hoje em dia sem pudor em Washington) com o ideal da democracia — dois princípios divergentes que só podem ser reconciliados pela ficção de indivíduos inteiramente livres e racionais, em particular enquanto agentes econômicos.

Contudo, apesar de todas as objeções que temos de levantar contra as implicações dessa construção semiótica, não podemos simplesmente rejeitá-la. Ignorá-la equivaleria a deixar de lado uma ferramenta descritiva extremamente poderosa, um modelo perfeitamente adequado para explicar um grande número de estratégias empiricamente observáveis em vários níveis da vida social. E mesmo politicamente, a ideia de um sistema que regula a vida civil com base na negociação e no contrato (em oposição à lei do mais forte) certamente não é o pior modelo possível de sociedade. Não obstante, não podemos deixar de observar que uma gramática da interação focada exclusivamente no desejo de posse reflete uma visão muito limitada da vida e do sentido do nosso ser-no-mundo. Além disso, tudo ao nosso redor, desde as políticas socioeconômicas até as estratégias geopolíticas e, claro, as mudanças climáticas, evoluiu de forma tão alarmante nas últimas décadas que sentimos a necessidade urgente de novas orientações, inclusive no modesto nível de nossas reflexões semióticas.

2. Daí a necessidade de um modelo mais abrangente — o que nos leva ao estágio mais recente de nossa trajetória de pesquisa. Existem outras formas de relacionamento culturalmente atestadas e outras sintaxes possíveis da interação, que abrem perspectivas semiopolíticas bastante diferentes. É o caso, em particular, do regime de sentido e interação que denomino “ajustamento” — um dos conceitos-chave do modelo sociossemiótico atual. A sintaxe em questão aqui difere completamente do esquema anterior. Ela renova a visão semiótica da sociedade e fornece argumentos em favor de um modo criativo de interação no nível da vida cotidiana. Mas isso não significa que o ajustamento deva “substituir” a manipulação. Na gramática narrativa ampliada que proponho, ambas têm seu lugar justificado e necessário como regimes interacionais alternativos. Então, que inovações pretendemos acrescentar com essa noção sintática de ajustamento?

Para começar, ajustamento não deve ser confundido com “adaptação”. Adaptação pertence a um regime interacional diferente — chamado de “programação” — no qual um dos interagentes obedece a inalteráveis regularidades comportamentais, de modo que a única forma de interação possível consiste em colocar essas regularidades em movimento (por exemplo, se precisar de água fervente, aqueça-a a 100°: não há outro meio). O ajustamento também não consiste — diferentemente da “manipulação” neste caso — em garantir que um dos agentes se curve, de bom grado ou não, às exigências do outro. O ajustamento é um regime de interação entre iguais, no qual ninguém impõe nada a ninguém. Além disso, diferentemente dos manipuladores, que (nem mais nem menos do que seus parceiros manipulados, já que ambos são sujeitos “intencionais”) sabem de antemão exatamente o que querem ou precisam e agem para obtê-lo, os parceiros de um processo de ajustamento são desprovidos de qualquer vontade predeterminada em relação a um objeto específico de busca. São agentes de mente aberta, sem preconceitos e flexíveis. Eles estão prontos para se “ajustar” ao inesperado que pode, por chance, ocorrer. Em suma, poderíamos dizer que estão desimpedidos, disponíveis. Yorick, o viajante de Laurence Sterne, é seu melhor modelo literário e seu mentor:

Que vasto leque de aventuras pode ser apreendido por aquele que se interessa por tudo e tem olhos para ver o que o tempo e o acaso lhe reservam perpetuamente.4

Por “disponibilidade” (fr. disponibilité) entendo uma disposição que, em vez de levar a almejar apropriar-se para dominar, visa apenas a desenvolver as próprias potencialidades e, mais precisamente, a fazê-lo mediante o desenvolvimento — o “desabrochamento” — do potencial de quem ou do que quer que se encontre, seja como parceiro humano, seja como co-agente não humano. Um sujeito “disponível” não anseia a priori por nada em particular. Aberto ao que se apresenta, ao momento presente e aos outros, aspira apenas a desempenhar o que ele é em potencial, a tornar-se o que quer que venha a ser, conforme as condições interacionais o permitam.

 

Além da noção semioticamente familiar de “virtualidade”, acabo de introduzir a de “potencialidade”. Embora possam parecer equivalentes, é crucial distingui-las em nossa discussão. Enquanto o que está em jogo em uma manipulação é a realização calculável de algo já virtual, o que está em jogo em um processo de ajustamento é o cumprimento5 conjectural de algo que ainda é apenas potencial. Consequentemente, enquanto o resultado de uma manipulação eficiente é previsível, os efeitos de um ajustamento bem-sucedido serão sempre, em certa medida, uma surpresa. Por quê?

5 N.d.t. Com a palavra cumprimento (ou “desabrochamento”), traduzimos o inglês fulfillment (francês, accomplissement). Para o autor, a palavra realização não convém porque, conforme o vocabulário semiótico padrão, ela designa a passagem do virtual para o realizado, e não do potencial para o cumprido.

A palavra virtual, como metatermo da gramática narrativa, aplica-se a objetos positivamente identificados (cuja natureza, forma, uso, valor etc. são conhecidos, mais ou menos exatamente), mas que, no momento considerado, são colocados em posição de “disjunção” em relação a um sujeito dado. Se forem positivamente valorizados, o fato de estarem “disjuntos” (o que basicamente significa não possuídos) os transforma em objetos de busca, motivando, assim, estratégias manipulativas de aquisição (ou “conjunção”). Ao contrário, o desenvolvimento potencial de um objeto, de uma situação ou de uma pessoa não pode ser precisamente conhecido de antemão. Pode-se, por exemplo, esperar a concretização das capacidades hipotéticas — as supostas “promessas” — de uma criança aparentemente talentosa, mas somente quando ela crescer será possível verificar se essas capacidades potenciais em que acreditávamos realmente existiram. Somente retrospectivamente, quando alguma façanha concreta comprovar a existência, até então latente, de tais potencialidades, teremos certeza de que elas existiram e saberemos exatamente o que elas possibilitariam.

Daí resulta que temos duas formas de interação completamente diferentes. Manipular para obter um objeto de valor virtual é um cálculo realista e razoável, visto que se sabe de antemão qual o resultado preciso que se pode esperar se as condições para a aquisição forem satisfeitas e o negócio for concluído. Confiar no potencial desconhecido — e de antemão incognoscível — de um parceiro é, ao contrário, sempre um tanto arriscado. É fazer uma aposta. Mas é exatamente isso que entrar em um processo de ajustamento exige! O ajustamento começa com um gesto de confiança e de generosidade gratuitas para com o outro, em oposição às estratégias cautelosas e egoístas da manipulação. Ao contrário da manipulação, que se baseia na prudência, o ajustamento está relacionado à aventura. E precisamente na medida em que é arriscado, é propício à novidade, enquanto a manipulação tende a reproduzir o idêntico sob mudanças superficiais.

Em um caso, simples mudanças superficiais — em outro, renovação criativa. Mais precisamente, como se manifestam respectivamente essas duas formas e graus de variação? Sem dúvida, os “estados de junção” de um manipulador, tanto quanto aqueles do sujeito que ele manipula, estão constantemente suscetíveis de mudar. Caso obtenham o que desejam (conjunção), passarão de um estado virtual para um estado de posse “realizado”. Ou o inverso, se forem privados do que possuem (disjunção). Mas isso não mudaria em nada o que eles são. Alguém quer se tornar presidente, vence as eleições, mas, por algum motivo, logo é obrigado a renunciar. Nas três situações sucessivas — cobiçar o poder, depois desfrutar de seu exercício e, por fim, lamentar sua perda —, a mesma visão de mundo, o mesmo projeto de vida, a mesma ambição regem as ações e os estados de espírito oscilantes dessa pessoa. As circunstâncias variam, mas, aconteça o que acontecer, o sujeito permanece a mesma pessoa obcecada pelo poder. Nenhuma mudança fundamental ocorre.

Em contraste, sob o regime de ajustamento, o que a interação modifica não se limita a atributos externos que se pode ganhar ou perder. Envolve mudanças mais profundas. O ajustamento mútuo implica, de ambos os lados, uma renovação da maneira de compreender o mundo. O simples fato de interagirem independentemente de objetivos predeterminados oferece a cada parceiro a oportunidade de descobrir, tanto em si quanto no outro, capacidades potenciais até então desconhecidas, das quais antes se tinha dúvidas ou mesmo total inconsciência. E, a partir disso, algo profundamente novo, uma forma de metamorfose existencial, pode emergir.

Claro, tudo depende do acaso — de um feliz acidente imprevisível: ter a sorte de encontrar um parceiro adequado, igualmente aberto a esse tipo de relacionamento. Isso implica logicamente que, para ambos os lados, o próprio “desabrochamento” por meio do ajustamento depende da disponibilidade do outro — que nunca pode ser dada como certa. E, se tal disponibilidade não existir, se o interlocutor não estiver pronto para esse tipo de relacionamento, mas, por exemplo, firmemente apegado à esfera predominante da manipulação (ou, a fortiori, à programação) — então buscar o ajustamento acabaria num fiasco ou algum tipo de acidente. Fosse somente por isso, privilegiar esse regime é sempre um pouco arriscado.

3. Para resumir toda a questão em termos mais abrangentes, eu diria que, enquanto sob o regime de manipulação a identidade sofre variações puramente quantitativas, o ajustamento permite metamorfoses qualitativas.

No primeiro contexto, a pessoa permanece a mesma, independentemente de acumular ou perder bens, fama, poder ou qualquer outro tipo de “objeto de valor”. Em completo contraste, ao se ajustarem mutuamente, os parceiros que interagem descobrem-se interiormente diferentes daquilo que acreditavam ser. O movimento de cada parceiro (seja uma modulação verbal em uma conversa ou uma abertura gestual, como em uma dança) funciona como um incentivo para que o outro improvise uma reação ajustada, e assim por diante, reciprocamente. “Incentivos” não são pedidos manipulativos explícitos, mas dicas discretas a serem compreendidas como convites para que algum potencial seja realizado.

 

Praticar esse regime interacional leva, portanto, a ampliar e, de certa forma, recriar a própria identidade, revelando aptidões até então insuspeitas pelos próprios olhos (e pelos do outro). Leva, como já dizia o título de um dos livros de Paul Ricœur há muito tempo, à descoberta de si mesmo como outro6. Quase um renascimento. De modo mais geral, em muitos domínios de atividade (educação, por exemplo, a maioria dos esportes, trabalho em equipe de qualquer tipo, arte, design e até mesmo pesquisa semiótica!), distintas formas de ajustamento mútuo entre si mesmo e algum outro apresentam-se como condição para a criação ou recriação. O status e a natureza do “outro” estão totalmente em aberto. Pode ser, obviamente, outra pessoa — a pessoa diante da qual estamos —, mas também pode ser qualquer ser vivo não humano, até mesmo uma máquina sofisticada, ou a matéria resistente de uma obra artística ou intelectual em andamento7. Até mesmo o próprio corpo pode ser considerado um “outro” sob esse regime8. Em todo caso, no nível que tomamos aqui como nossa principal referência, o dos encontros sociais, quando a disponibilidade é recíproca, a dinâmica das relações intersubjetivas pode assumir a forma de um processo de cocriação do sentido e, por assim dizer, de reinvenção da vida.

6 P. Ricœur, Soi-même comme un autre, Paris, Seuil, 1990. Trad. port. L. Moreira Cesar, Si-mesmo como um outro, Campinas, Papirus, 1991.

Imaginemos um contexto em que a interação não esteja exaustivamente sujeita a um determinismo físico ou social rígido (como na programação), nem entregue ao acaso ou à arbitrariedade de alguma instância todo-poderosa (como no regime do acidente), nem dependente do resultado de negociações difíceis entre intenções ou interesses divergentes (como na manipulação). A vida poderia então ser concebida, ou ao menos idealizada, como uma aventura livre, criativa e, portanto, gratificante. Na imanência de relações entre entidades ao mesmo tempo interdependentes, sensíveis umas às outras e comprometidas com a preservação de sua respectiva autonomia, o potencial de cada agente poderia vir a ser vivido mediante a concretização correlativa do potencial do outro (ou dos outros). Essa sintaxe é, por exemplo, a da amizade, uma forma de relacionamento que envolve uma dinâmica de incentivos recíprocos sem objetivos ou regras preestabelecidas, graças à qual uma nova maneira de ser, pensar e viver em conjunto pode ser inventada entre os parceiros e remodelada a qualquer momento.

 

Contudo, tal como as sintaxes manipulativas, programáticas ou baseadas no acaso, a sintaxe de ajustamento não é, em termos absolutos, nem boa nem má. Tal como a manipulação é ambivalente — positiva como base de processos democráticos, negativa como princípio de uma forma de mercantilismo —, também a sintaxe de ajustamento apresenta dois lados opostos. Em particular, aplicada em nível coletivo, pode conduzir tanto a uma verdadeira redefinição das relações sociais como às piores formas de demagogia populista9. Isso significa que, mesmo que, gramaticalmente falando, abra caminho para dinâmicas mais diversas, mais complexas e mais propensas a conferir à vida um sentido existencial mais profundo do que os outros três regimes interacionais, o valor semiopolítico de sua aplicação depende, tal como acontece com os outros, de múltiplos fatores contextuais: das modalidades precisas de sua implementação, do campo de atividade em causa e da forma como sua sintaxe se articula com a de outros regimes simultaneamente em jogo numa dada situação.

9 Cf. E. Landowski, “Critique sémiotique du populisme”, Punctum, VI, 2, 2020. Trad. port. M. Scóz e A.C. de Oliveira, “Crítica semiótica do populismo”, Galáxia, 44, 2020.

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Durante muito tempo, a semiótica estrutural reconheceu apenas um tipo de processo interacional, a saber, as estratégias de manipulação, em perfeita consonância com o estilo de vida dominante em nossas sociedades. Essa aliança implícita entre a teoria semiótica e uma ideologia de pura apropriação e dominação já me parecia incongruente há muito tempo10. E hoje, com as diversas crises que atravessamos, não podemos deixar de observar que a implementação sistemática da orientação semiopolítica que tal esquema “canônico” implica só levou a desigualdades cada vez maiores entre as nações e, dentro das nações, entre os cidadãos, à multiplicação de conflitos sociais e internacionais e, finalmente, sobretudo, à destruição cada vez mais acelerada das condições ambientais para a vida: em suma, a uma perda geral de sentido11.

10 Cf. “Petit manifeste sémiotique”, Actes Sémiotiques, 120, 2017.

Nós, sociosemioticistas, portanto, nos unimos aos muitos que defendem o que consideramos exatamente o oposto: uma prática ecológica do sentido e da interação, voltada para formas de cumprimento mútuo em nossos relacionamentos com os outros em todos os níveis, desde encontros interpessoais até o tratamento global do meio ambiente. Essa escolha não é ditada por princípios morais transcendentais, nem é a expressão de uma simples preferência individual. O que a justifica é a diferença no potencial respectivo (pois, também nesse nível, a noção se aplica) oferecido por cada um dos regimes de sentido interdefinidos pelo modelo interacional que propomos. Raciocinando nesses termos semióticos, chegamos à conclusão de que somente por meio de práticas guiadas pela busca de ajustamentos entre os interagentes, um pouco mais de sentido (tanto nos assuntos mundiais quanto na vida pessoal) poderá ter uma chance de ressurgir do caos atual. E que, em nível global, uma forma de vida sustentável poderá, apesar de tudo, ser reinventada.

Existe, portanto, uma política da semiótica. A construção de uma teoria adequada e de uma metalinguagem coerente, que acompanha o desenvolvimento de modelos operacionais, constitui o lado acadêmico necessário e visível de nossa disciplina. Mas esse trabalho não pode ser separado de uma prática de construção de sentido que se engaja com o mundo e o cotidiano: este é o lado complementar, onde as preocupações acadêmicas encontram compromissos efetivos que impactam a experiência vivida. A semiótica de Greimas já buscava “morder a realidade”. Contudo, ao privilegiar panoramas amplos e princípios universalmente válidos, também tendia a se distanciar das contingências. Eminentemente racional, era também razoável. Nossa sociossemiótica se esforça para não ser menos rigorosa — conceitualmente — mas não busca ser tão razoável. Pelo contrário, gostaríamos de reencantar o mundo! Embora reconheçamos que isso possa ser um tanto utópico, persistimos na busca do caminho para outra política do sentido: um programa semiótico renovado para mais vinte anos?

 

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