Analyses et descriptions
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Caminhar : práticas, interações e produção de sentido Alexandre Marcelo Bueno São Paulo, Universidade Presbiteriana Mackenzie e CNPq Acta Semiotica, VI, 10, 2026
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IntroduçãoHá uma série de discussões, na ciência, sobre a datação da origem do caminhar humano e os seus motivos. Trata-se de uma discussão sem fim, como a da origem da linguagem. O que diferentes estudos destacam é a diferença que se estabeleceu entre humanos e animais, ou seja, a distinção do humano em relação à natureza. Tornar-se bípede permitiu ao ser humano liberar suas mãos para produzir objetos que potencializaram sua capacidade para a caça e o plantio, entre outras possibilidades. Em princípio, caminhar é um modo de entender como o humano funda a cultura, embora essa ruptura não seja atualmente encarada como uma negação da natureza. É essa relação ambígua entre natureza e cultura que destaca a filosofa americana Rebecca Solnit : O caminhar é um estranho fulcro na teoria evolutiva humana. É a transformação anatômica que nos arrancou do reino animal para acabar ocupando nossa posição de solitária dominância sobre a Terra. Hoje é uma limitação, não nos leva mais a um futuro fantástico, mas nos une a um passado remoto por ser o mesmo modo de andar de cem mil, 1 milhão ou, para quem concorda com Lovejoy, 3 milhões de anos atrás. Pode ter possibilitado a atividade das mãos e a expansão da mente, mas continua não sendo algo particularmente eficiente ou veloz. Se um dia nos distinguiu do resto dos animais, hoje — assim como o sexo e o parto, respirar e comer — nos prende aos limites da biologia.1 Contudo, não concordamos totalmente com a afirmação de que o caminhar pouco mudou desde sua origem. Pretendemos, ao contrário, refletir semioticamente sobre as possibilidades de variação desta prática : caminhar. Reside aí uma das especificidades da semiótica discursiva e, em particular, da sociossemiótica, em relação a outras disciplinas : a de se buscar não somente os elementos invariantes mas também os princípios de variação que, orientando a experiência, lhe dão sentido e permitem dar conta da complexidade de uma determinada prática humana. Em um trabalho anterior2, buscamos desenvolver algumas considerações gerais a respeito do caminhar a partir de diferentes perspectivas que a semiótica greimasiana propõe, aproveitando em particular o modelo interacional (a problemática dos regimes de sentido e interação) elaborado por Eric Landowski3. Para o presente trabalho, nosso objetivo é o de identificar diferentes estilos do caminhar, em paralelo com a noção de estilos de vida desenvolvida pelo mesmo autor4. Além disso, propomos pensar na relação desses estilos do caminhar com o modelo dos regimes de sentido do espaço também proposto por Landowski5. Como os distintos estilos do caminhar se adequam ou se confrontam com os espaços a serem percorridos, eles mesmos produtores tanto de significação no plano cognitivo, quanto de efeitos estesicamente sensíveis ? Antes de convocarmos os regimes de interação e sentido, passemos para algumas considerações mais gerais sobre o caminhar, do senso comum às especificidades que semioticistas já desenvolveram. 1. Considerações gerais sobre o caminharIniciamos com a definição de “caminhar” no Dicionário Houaiss Online. Apesar de não ser a palavra final a respeito dos sentidos de uma prática como o caminhar, o dicionário é um repositório do senso comum de uma determinada sociedade em um momento histórico definido. Por isso, o utilizamos como um ponto de partida. caminhar 1 seguir por um caminho ou percorrê-lo andando a pé ‹caminhou até o cinema› ‹devemos caminhar pela calçada› ‹caminhou longa estrada› 2 deslocar-se colocando alternadamente um pé na frente do outro; locomover-se a pé; andar ‹dispensa o carro, pois prefere caminhar› 3 ir e vir livremente, não ter impedimentos à sua ação ou influência; campear, grassar ‹as novas ideias caminham rapidamente› 4 ter bom desenvolvimento ou progresso; ir para adiante ou para a frente; avançar com sucesso; progredir ‹quanto mais trabalhar, mais seu livro caminhará› 5 fig. passar por ações, processos ou acontecimentos numa sucessão de fases; evoluir, desenvolver-se ‹o empreendimento caminha para o sucesso› ‹não está rico, mas seus negócios caminham› 6 fig. tender irresistivelmente para (certo ponto, destino, desfecho etc.) ‹esse conflito caminha para um desenlace violento› 7 cruzar (mar, rio etc.) em embarcação; navegar ‹o barco caminhava com muita rapidez›. As três primeiras entradas, por ser de caráter funcional, apresentam limitações óbvias. Deixam de lado outras dimensões, como a estética, o prazer e, sobretudo, a finalidade e o contexto desta prática : Caminhar não é [somente] mover-se por mover-se. Desviar, passar o tempo, voltar sobre os nossos passos não é apenas belo ou prazeroso, não exalta apenas a nossa particularidade de seres humanos em contraste com a repetição das máquinas, mas é, sobretudo e antes de tudo, possível enquanto ato inserido em uma ordem, em um percurso, em um télos.6 Como notado pelo pensador italiano, caminhar pode ser entendido tanto em sua funcionalidade, como por meio da perspectiva estética : o caminhar é um fenômeno complexo, uma atividade polissêmica. Entretanto, em todos os casos, ele pressupõe uma organização invariante : caminha-se com um pé depois do outro andando para frente. Esse traço de “seguir adiante” está na base das quarta, quinta e sexta definições do dicionário. Mas o caminhar é mais do que andar para a frente : é também um modo de se inserir no mundo e de se relacionar com ele, na produção de prazer ou desprazer, da contemplação e da reflexão, do encontro com o acaso ou da realização de um objetivo. Em outras palavras, o caminhar é um ato produtor de significações e de sentidos sentidos por um sujeito ou um actante coletivo. Para trazer o tema mais para perto da semiótica, recorremos ainda à seguinte definição, dada por Michel de Certeau : O ato de caminhar está para o sistema urbano como a enunciação (o speech act) está para a língua ou para os enunciados proferidos. Vendo as coisas no nível mais elementar, ele tem com efeito uma tríplice função 'enunciativa': é um processo de apropriação do sistema topográfico pelo pedestre (assim como o locutor se apropria e assume a língua); é uma realização espacial do lugar (assim como o ato de palavra é uma realização sonora da língua); enfim, implica relações entre posições diferenciadas, ou seja, 'contratos' pragmáticos sob a forma de movimentos (assim como a enunciação verbal é 'alocução', 'coloca o outro em face' do locutor e põe em jogo contratos entre colocutores). O ato de caminhar parece, portanto, encontrar uma primeira definição como espaço de enunciação.7 De Certeau faz um paralelo entre o caminhar e o falar. Este mobiliza a língua, ou seja, o falante se apropria do sistema linguístico, enquanto aquele mobilizaria um “sistema urbano”, apropriando-se do sistema topográfico. Realiza-se parte desse sistema no ato mesmo do caminhar, tal como o falante realiza a língua em seu ato de fala. Isso remete a Benveniste e sua definição de enunciação : a colocação em funcionamento do sistema linguístico8. Assim, o caminhar seria o ato de colocar o sistema espacial em funcionamento. Além disso, esse caminhante estabelece contratos pragmáticos por meio dos movimentos, tal como o falante estabelece um contrato comunicacional (fiduciário e veridictório) com seu interlocutor. A semiótica já contribuiu para essa relação enunciativa entre o ato de caminhar e a fala. A esse respeito, mencionamos o estudo de Jean-Marie Floch a respeito dos usuários do metrô de Paris9. O texto mostra como a semiótica analisa diferentes práticas no uso de um determinado espaço10. Abordando o percurso dos usuários do metrô como um texto, Floch chega a quatro estilos de usuários : Para uns — nossos agrimensores — os trajetos cotidianos são como variações e jogos de transformação produtores de sentido. Para outros — nossos sonâmbulos — esses trajetos cotidianos representam a instância neutra na qual alguns deles conseguem enxertar outras práticas significantes : ler, tricotar. “Sonâmbulo”, aqui, não deve ser interpretado numa acepção pejorativa ou patológica : os sonâmbulos não são zumbis nem mortos-vivos. (...) E quanto aos profissionais e errantes ? Que tipos de apreensão ou produção de sentido formam o significado de seus respectivos comportamentos ? Se podemos presumir que, de início, todos nós fomos sujeitos prospectadores, agrimensores — já que todos tivemos de aprender um dia a nos locomover e situar dentro do metrô —, o encadeamento efetuado pelo profissional deve ser concebido como um empreendimento de dessemantização, de abstração e formalização. (...) Já a prática significante do errante [fr. flâneur] é todo o oposto : o que ele quer viver é a emoção, as situações de surgimento e emergência do inesperado. O errante é apreciador do bizarro e de todos os momentos em que o sentido surge, mas sem estar ainda estruturado, sem poder ser submetido, de pronto, a qualquer crivo de leitura ; é alguém que deseja ser surpreendido.11 Agrimensor, sonâmbulo, profissional e errante. Quatro estilos de usuários depreendidos a partir da observação e de questionários aplicados por uma equipe liderada pelo semioticista. Cada categoria apresenta características próprias : o agrimensor é o sujeito da prospecção, na medida em que aprende como usar e se estabelecer no espaço da estação no momento mesmo que o utiliza ; o sonâmbulo apresenta uma dupla prática : a do percorrer automatizado na estação, ao mesmo tempo que mantém uma prática mais lúdica (escutar música, ler um livro, tricotar) ; o profissional é o sujeito do automatismo pleno, formal e dessemantizado ; por fim, o errante é aquele sujeito que está aberto à surpresa e às variações de sentido na experiência do metrô. O artigo abre, ainda, para uma outra discussão importante. Como Floch parte da noção de “usuários”, recorremos também à distinção introduzida mais tarde por Landowski, entre “uso” (ou utilização funcional) e “prática” (entendida como atividade mais criativa) para analisarmos as possíveis relações entre o caminhante e o espaço percorrido. Mas, para começar, vejamos as definições do Dicionário de Semiótica12. Na esteira de Hjelmslev13, Greimas e Courtés afirmam que os usos linguísticos podem ser entendidos como um “conjunto de hábitos linguísticos de uma dada sociedade”14. Em outras palavras, não se trata de uma fala individual, mas de uma dimensão coletiva da fala. Os autores ainda apontam para a diferença entre esquema linguístico (a língua em Saussure) e o uso linguístico (a fala em Saussure) : o esquema seria aberto, em oposição ao fechamento do uso, uma vez que se trata, com este último, de uma realização e manifestação explícita das virtualidades existentes no esquema. No caso do caminhar, é como se houvesse maneiras de caminhar que formariam conjuntos realizados por caminhantes distintos, mas cujas características estariam em conformação com esse conjunto de hábitos comportamentais comuns que caracterizam o ato de caminhar. Trata-se, em seu limite, da organização do sistema urbano-espacial de que fala Michel de Certeau no livro citado acima. A prática é definida por Greimas como “os processos semióticos reconhecíveis no interior do mundo natural e definíveis de modo comparável aos discursos (que são ‘práticas verbais’, isto é, processos semióticos situados no interior das línguas naturais”15. Assim, o caminhar estaria inserido diretamente na semiótica do mundo natural, o que, mais uma vez, corroboraria o paralelo estabelecido por de Certeau entre o falar o e caminhar, entre a enunciação linguística e a enunciação pedestre. Mas retomamos agora a distinção de Landowski entre o utilizar e o praticar16. Resumidamente, utilizar um determinado objeto estabelece uma relação funcional entre o sujeito operador e o objeto operado, enquanto a prática envolve uma interação sensível a favor da qual o sujeito explora os elementos plásticos presentes no objeto com o qual interage. Veremos adiante como essa distinção é importante para a diferenciação entre os estilos de caminhar que pretendemos propor, uma vez que analisar semioticamente o ato de caminhar engloba tanto o sujeito como o próprio espaço em que se caminha. Em resumo, o ato de caminhar, usualmente percebido como uma atividade elementar (do ponto de vista biológico e motor) e cotidiana (do ponto de vista social e cultural), envolve, bem além disso, um conjunto de efeitos de sentido que mobilizam o corpo, os espaços e os modos pelos quais o sujeito se relaciona com o mundo por meio da enunciação pedestre. Partimos, assim, da hipótese de que o caminhar é uma prática semiótica capaz de apreender e de produzir diferentes sentidos e significações a partir do encontro do caminhante com uma determinada configuração espacial preexistente, mas cujos sentidos virtuais, enquanto um sistema, são efetivamente realizados a partir dos diferentes usos e práticas que o caminhar promove por meio da disposição de um sujeito. 2.1. O caminhar programado : automatismo e eficácia Em 2023, o site Mobilidade Estadão (ligado ao tradicional jornal paulistano) publicou a seguinte manchete : “Brasileiro caminha quase 2 km para chegar no trabalho, diz estudo”17. No começo da reportagem indica-se com um pouco mais de detalhes de que tipo de caminhar se trata : Os brasileiros andam 1,8 km por dia, em média, durante a ida e volta ao trabalho. Este deslocamento pode variar entre 20 e 30 minutos todos os dias e inclui todos os percursos a pé que integram o itinerário do trabalhador, como troca de um transporte por outro e possíveis baldeações, dentre outras necessidades. Trata-se de um caminhar baseado no regime de programação. Nesse regime, como se sabe, as ações são pautadas pela previsibilidade, pela obediência a regras e pelo controle automatizado dos procedimentos operatórios. O sujeito realiza uma ação, e eventualmente uma interação, quase sem sentido, uma vez que é o automatismo que orienta o seu fazer. O caminhante, em sua prática de caminhar de modo programado, segue trajetórias pré-estabelecidas e pouco refletidas. Seus comportamentos são repetitivos e socialmente normatizados, tal como fazem diariamente os trabalhadores da notícia anterior. O caminhante programado faz aquilo que os demais fazem e, por isso, via de regra, não chama atenção, mesmo de um observador atento. Uma lógica funcional domina essa prática, priorizando a regularidade e o cumprimento de padrões definidos previamente e repetidos. Evidentemente, isso exclui desvios voluntários ou involuntários. Mais geralmente, o regime de programação pressupõe um ou outro entre dois tipos de condicionamentos que, no caso do caminhar programado, se sobrepõem : uma necessidade física (caminha-se colocando um pé diante do outro e assim sucessivamente) e alguma forma de coerção social : anda-se de modo automatizado para ir ao trabalho, por causa de um compromisso etc. O caminhar programado envolve ainda uma dimensão econômica tipicamente manifestada em termos de eficácia. Trata-se de um caminhar que levará o sujeito de um ponto A para um ponto B, como em um esquema geométrico. E o sujeito sabe quanto tempo ele necessita para chegar aonde ele quer. Para isso, não precisa de grandes questões existenciais. Ao contrário, uma autorreflexão sobre o caminhar poderia atrapalhar a produtividade de seu ato. No caminhar programado, não há qualquer busca por um objeto de valor nem qualquer tipo de busca pelo reconhecimento ou prêmio para o seu caminhar eficiente. Em suma, é o caminhar que faz o caminhante cumprir o fazer que o seu papel temático exige : caminhar com um risco mínimo. Entretanto, o caminhar programado não implica necessariamente um vazio mental completo. O automatismo que o caracteriza pode ser devido, como assinala o monge budista Thich Nhat Hanh, a pensamentos ou preocupações que fazem o caminhante perder a própria consciência de estar caminhando : “Nós andamos como sonâmbulos, sem desfrutar do que fazemos. Estamos andando, mas em nossas mentes já estamos fazendo outra coisa : planejando, organizando, nos preocupando”18. Finalmente, encontramos no caminhar programado algo paradoxal : embora o caminhante pareça desprovido de qualquer disposição passional (sem qualquer prazer em seu ato), nada exclui que, caminhando, ele se coloque uma série de questões de ordem passional ou existencial que, justamente pela concentraçao mental que supoem, acabam fazendo do ato de caminhar uma prática automatizada. 2.2. O caminhar acidental : liberdade do vagar a esmo Em um trecho do filme Playtime (“Tempo de diversão”), de Jacques Tati, vemos a personagem principal tropeçar em uma calçada de uma grande cidade19. Esse microgesto inesperado constitui uma súbita suspensão da regularidade, enfatizando a vulnerabilidade do corpo ao não se conformar adequadamente com a contingência do espaço da rua. Nesse momento, é o regime de acidente que surge em sua forma mais casual. Como se sabe, trata-se de um regime que se caracteriza pela irrupção do inesperado e pela imprevisibilidade das situações e interações. Nesse contexto, a descontinuidade é central : o sujeito é confrontado por eventos que fogem à programação e exigem adaptações imediatas, após uma breve perda de sentido e de controle sobre a situação. Aqui, o risco é máximo. O sentido, ou o não-sentido, que emerge do imprevisto desafia a capacidade (ou a falta de capacidade) de improvisação diante das contingências devidas ao encontro de dois programas que não deveriam se encontrar (em condições esperadas). Isso dito, para além do acidente casual, a dimensão acidental do caminhar pode tomar duas outras formas bem conhecidas : perder-se no caminho ou caminhar sem um rumo previamente definido. Perder-se no caminho, querendo ou não, faz com que o caminhar se situe fora de um quadro referencial anteriormente fixado. É o caso, por exemplo, do turista que se aventura por uma cidade que não conhece, ou de quem, na floresta, opta por percursos não sinalizados e constrói o próprio caminhar sem planejamento prévio ou o uso de um mapa. Trata-se de uma abertura ao risco do não se deparar com o sentido conhecido, possibilitando efeitos de sentido inesperados e encontros ocasionais com a surpresa. Isso corresponde a um tipo de caminhar também conhecido como “vagar” : vagar 1 andar sem rumo certo, perambular, vaguear ‹perdida, a criança vagava (pelas) ruas› ‹ao se aposentar, não fará outra coisa que não seja vagar› 1.1 percorrer sem destino certo (um lugar, um país, o mundo) ‹vagar (por) países exóticos› ‹para ele, o melhor de uma viagem é vagar› 2 movimentar-se ao sabor do vento, das vagas, do acaso ‹como uma folha vagando ao vento› ‹o barquinho ao longe vagava› 3 ser de conhecimento público ; espalhar-se, correr ‹vagavam histórias fantásticas sobre ele› Vagar a esmo, sem rumo ou destino, é o caminhar dos sujeitos que experienciam uma liberdade que inexiste no caminhar programado. Sem finalidade nem objetivo, caminha-se apenas pelo caminhar. Esse tipo de caminhar foge à previsibilidade e ao controle das trajetórias programadas, além de não ter uma perspectiva econômica ou produtiva. Caminhar a esmo é um desperdício ! diriam os adeptos das programações. Mas apesar da desorientação, ou justamente graças a ela, o sujeito ganha a chance de fazer descobertas inesperadas. Por oposição à programação do trabalhador, o caminhar acidental é o caminhar dos vagamundos, dos outsiders, à maneira de André Breton e seus companheiros surrealistas : Os quatro homens pegaram um trem para (...) uma cidade escolhida aleatoriamente no mapa, depois saíram caminhando a esmo. (...) Seu objetivo era a ausência de objetivos, uma tentativa de transpor para a estrada as descobertas casuais da escrite automatica (...) Durante as paradas para descanso eles escreveram textos, muitos dos quais continham reflexos do ambiente em que estavam no momento. Mas, na maior parte do tempo, eles vagavam a esmo pelo campo (...), seguindo resolutamente a sua falta de itinerário.20 2.3. O caminhar intencional : a busca pelos valores No regime da manipulação, a relação é fundada na intencionalidade. O sujeito busca influenciar, persuadir ou convencer o outro, atuando segundo um projeto próprio. O sentido é produzido a partir de estratégias de convencimento, em que a interação envolve negociação de interesses, objetivos e expectativas entre os envolvidos, até eles chegarem a um contrato fiduciário e veridictório (explicito ou não) proposto pelo destinador-manipulador. Em uma caminhada baseada neste regime (a chamaremos de “caminhar intencional”), o caminhar visa a algo, ou seja, há um objeto de valor a ser alcançado : mais saúde, melhor aparência, economizar o dinheiro do transporte, entre outras possibilidades. Descrevendo sucintamente os benefícios do caminhar, o historiador italiano Sergio Valzania nos lembra que caminhar, além de “fazer bem para a saúde”, é divertido, faz se sentir livre, é barato, permite conhecer pessoas interessantes e conhecer o mundo, entre outras vantagens. O caminhante “intencional” entende, portanto, o caminhar como um meio para se alcançar outros objetivos para além do próprio caminhar. Podemos ainda pensar no peregrino que caminha sozinho para pagar uma promessa, ou nos fiéis que realizam procissões para manifestar sua fé e homenagear santos ou santas. Do mesmo modo, é possível observar, coletivamente, a marcha de grupos políticos em protesto com a autoridade ou por uma pauta social e política específica. Apesar de não ser aqui nosso objetivo, não nos esquecemos de que, caminhando, também actantes coletivos realizam práticas significantes orientadas por determinadas intenções. Um outro modo de caminhar que depende do mesmo regime é seu uso enquanto incentivo para a reflexão, tal como apontado pelo filosofo Frédéric Gros21 : é, por um lado, o caminhar dos filósofos (desde a antiga Grécia até Jean-Jacques Rousseau ou Imanuel Kant com sua precisão diária do caminhar pelas ruas de Konigsberg), e por outro lado, o do “flâneur”, figura complexa que remete a dois dos nossos regimes e que, por isso, retomaremos mais adiante. O caminhar intencional busca sempre, de alguma forma, estabelecer um elo do sujeito com objetos do mundo, mas também do sujeito consigo mesmo. Nos termos de Rousseau : O hábito de entrar em mim me fez perder, por fim, o sentimento e quase a lembrança de meus males ; aprendi, assim, por minha própria experiência, que a fonte da verdadeira felicidade está em nós, e não depende dos homens tornar miserável aquele que quer ser feliz. Havia quatro ou cinco anos, eu experimentava habitualmente essas delícias internas que as almas ternas e doces encontram na contemplação. Esses arrebatamentos, esses êxtases que por vezes experimentava ao caminhar sozinho, eram prazeres que devia a meus algozes : sem eles, eu jamais teria encontrado ou sequer conhecido os tesouros que trazia dentro de mim.22 O autor argumenta que a felicidade se obtém sozinho, ao se isolar da sociedade, muitas vezes por meio de caminhadas solitárias. O caminhar é, assim, utilizado como uma forma de se autoconhecer, assim como de alcançar um estado passional eufórico. No final das contas, quer se trate de conseguir um determinado resultado prático, quer, simplesmente, de se autocompreender, o princípio básico do caminhar intencional fica o mesmo : caminha-se em busca de um determinado objeto de valor, concreto ou abstrato. É um modo de encontrar algo, mesmo que, às vezes, não se saiba exatamente o quê. Pois, às vezes, encontra-se aquilo que não se procura. 2.4. O caminhar estésico : sensibilidade no flanar Quando é praticado conforme o regime do ajustamento, o ato de caminhar ganha um caráter estésico que, por definição, convoca antes do mais a sensibilidade. A experiência do caminhar sensível se constrói a partir do encontro entre sujeitos ao mesmo tempo que entre o sujeito e o espaço percorrido. Caminhar significa entãoo estar continuamente sensível ao ambiente, aberto às ações das pessoas ao redor e, de modo geral, atuar em função das variações do contexto, privilegiando formas improvisadas de harmonizaçao mútua, tudo isso sem seguir regras ou trajetórias predeterminadas. É aqui que (re)encontramos a figura do “flâneur” : flanar andar ociosamente, sem rumo nem sentido certo ; flanear, flainar, perambular ‹flanar pelo centro da cidade a procura de temas para crônicas› Nesse caso, torna-se regra que o percurso do caminhante seja orientado por impulsos sensoriais. Pode ser o som de uma música, algum perfume no campo, um cheiro de comida etc., ou a luminosidade de determinado local, levando o sujeito a seguir um percurso não previsto e não linear, guiado pelas sensações do momento. Por outra parte, a sensibilidade constitui também a forma de competência (não modal, mas estésica) que serve ao caminhante para mover-se em multidões densas : o indivíduo negocia microdesvios e ajusta ritmos para evitar choques e garantir a fluidez do movimento em meio ao coletivo. Em tais casos, o percurso é sentido no próprio ato de caminhar, em resposta às potencialidades abertas pela configuração do espaço ou sugeridas pela preocupação mútua de convivência entre sujeitos em movimento. O caminhar estésico pode estar ainda ligado a uma prática sem finalidade específica (nem mesmo a de evitar choques com outros caminhantes). Trata-se então de um caminhar contemplativo em relação à dimensão sensível do mundo. A escritora Lauren Elkin aponta para algumas características desse estilo de caminhar : Me deixem andar. Me deixem seguir em meu ritmo. Me deixem sentir a vida passar por dentro e a minha volta. Me deem emoção. Me deem esquinas em curva inesperadas. Me deem igrejas desconcertantes, vitrines bonitas e parques onde eu possa me deitar. 23 Um tal tipo de caminhar não visa a uma funcionalidade programada ou a uma intencionalidade em busca de algo. Trata-se apenas de caminhar, segundo seu ritmo, para sentir-se e sentir o que está à sua volta. Deste ponto de vista, pode-se dizer, com F. Gros, que “o flâneur é subversivo” : Subverte a multidão, a mercadoria e a cidade, assim como seus valores. (...) O caminhante dos grandes espaços, o excursionista com a mochila nas costas, opõe-se à civilização com a explosão de uma ruptura, uma negação definitiva (...). O ato de caminhar do flâneur é mais ambíguo, e sua resistência à modernidade, ambivalente. Subversão não é opor-se, mas contornar, desviar, exagerar até alterar e aceitar até ultrapassar. O flâneur subverte a solidão, a velocidade, o atarefamento e o consumo.24 3. Entrecruzamento do caminhar com os regimes de espaçoUma vez descritos os estilos do caminhar, é preciso observar como o caminhar produz seu sentido a partir do encontro com as qualidades imanentes do espaço. Assim, para além de pensar nos estilos do caminhar em espaços homogêneos (como o da estação do metrô), gostaríamos de pensar na relação entre o sujeito caminhante e as diferentes possibilidades de sentido do espaço mesmo. Essas possibilidades correspondem a distintos “regimes de espaço” que, eles mesmos, são baseados nos regimes de interação e sentido que já conhecemos. Em outras palavras, o modelo interacional geral rege não somente as interações entre os sujeitos, mas também o modo de significar dos espaços (assim como, aliás, do tempo25) em que eles interagem. Por isso, vamos agora partir da proposta de Landowski a respeito desses “regimes de espaço” 26. Trata-se, i), da Rede, entendida como o espaço da conexão entre pontos : esse regime espacial tem como base a continuidade, tal qual o regime geral de programação ; ii), do Tecido, encarado como o espaço da circulação dos objetos e dos sujeitos, o que corresponde à sintaxe da manipulação; iii), da Voluta, vista como o espaço dos percursos sensíveis e das improvisações, conforme o ajustamento; e, iv), do Abismo, ou seja, do espaço existencial da imensidão e da ausência de controle, forma espacial do regime geral dito do acidente. Essas categorias evidenciam que o espaço não é apenas um fundo neutro ou homogêneo, dado tal qual para a utilização ou a prática, mas uma dimensão ativa do processo semiótico do caminhar. Partimos, portanto, da premissa de que cada espaço convoca o seu equivalente modo de caminhar. Jean-Paul Petitimbert, no artigo já mencionado, relaciona elegantemente a semiótica tensiva e os regimes de espaço, apontando, ele também, que o espaço não é um dado referencial unívoco, mas que o sentido que um sujeito lhe atribui é sempre construído a partir de algum tipo de interação vivida27. De modo mais pontual, objetivamos entender qual tipo de espaço (e, daí, qual regime de espaço) está pressuposto por cada um de nossos regimes de caminhar. Para começar, se combinarmos o caminhar programado com o espaço Tecido, onde teremos uma continuidade plena, na medida em que o espaço apenas “facilita” o caminhar do sujeito, por exemplo com uma calçada alinhada, sem buracos, na qual o caminhar programado pode se desenvolver sem qualquer tipo de mudança de percurso. Trata-se em suma de um espaço dessemantizado ao qual o caminhante quase que por completo nem presta atenção em sua utilização. O caminhar intencional e a Rede remetem tipicamente ao andar pelo shopping center em busca da loja em que o caminhante vai se converter em consumidor e comprar um determinado objeto de valor. Esse é, assim, o espaço da busca por objetos ofertados mediante estratégias de manipulação tais como a sedução, a provocação, a intimidação ou a tentação. No espaço de um aeroporto, com seus sinais de passagem obrigatória ou interditada, de paradas para fiscalização e prosseguimentos organizados, o percurso do caminhante é continuamente e ainda mais estritamente orientado (inclusive com um trecho inevitável entre as mesmas lojas que no shopping). Trata-se de um espaço controlado que guia, sem muitas ambiguidades, o caminhar intencional até a conjunção final, ou seja, a chegada ao avião. Desse modo, tanto o aeroporto como o shopping center apresentam características topológicas e plásticas típicas do que o antropólogo Marc Augé chama de “não-lugar” 28. O caminhar sensível supõe um espaço dotado de consistência estésica e, muitas vezes, relativamente fechado sobre si mesmo (daí a ideia de “Voluta”), tal como, por exemplo, um parque. Ao caminhar por um parque, se sente — se desfruta — o calor do sol, um ar mais respirável do que no meio do trânsito, se aproveita as sombras refrescantes das árvores, o piar dos pássaros, e, claro, a presença de outras pessoas em busca da mesma experiência sensível. Flanar deste modo dentro dos limites do parque com todos os próprios órgãos dos sentidos abertos, não é utilizar o dito espaço — é saber praticá-lo. O caminhar acidental e o Abismo remetem à interação entre o caminhante errante, vagamundo, sem percurso certo a fazer e um espaço que tende a parecer sem limite, ou seja, como uma imensidão ou mesmo um vazio. Por ser totalmente aberto, sem pontos referenciais, um tal espaço no qual nem se sabe onde um está, não deixa de induzir, possivelmente, certa angústia (ou algum questionamento de ordem existencial). Afinal, nesta intersecção entre regimes de interação e regimes de espaço, reencontramos a ideia inicial de Michel de Certeau : O espaço é o efeito produzido pelas operações que o orientam, o circunstanciam, o temporalizam e o levam a funcionar em unidade polivalente de programas conflituais ou de proximidades contratuais. O espaço estaria para o lugar como a palavra quando falada, isto é, quando é percebida na ambiguidade de uma efetuação, mudada em um termo que depende de múltiplas convenções, colocada como o ato de um presente (ou de um tempo), e modificado pelas transformações devidas a proximidades sucessivas. Diversamente do lugar, não tem, portanto, nem a univocidade nem a estabilidade de um ‘próprio’.29 Temo-nos detido na ideia de que o caminhar, enquanto uma prática, muitas vezes envolve relações contratuais. Mas pensamos também nas relações conflituais, em particular entre regimes. Uma ruptura entre regimes se manifesta, por exemplo, em situações como aquela apresentada no filme de Tsai Ming-Liang, Walker, onde o ritmo do caminhar sensível contrasta com o ritmo acelerado da cidade programada, ou seja, do espaço Tecido30. Em vídeos do gênero “Walktour”31, temos, desta vez, um caminhar programado que interage com um espaço Tecido, ou seja, onde o caminhante percorre um espaço no qual os objetos circulam e os sujeitos estão a todo o momento sendo manipulados pelas vitrinas e pela publicidade, mas cujo efeito de subjetividade é parcialmente anulado pela programação à qual o sujeito é submetido e que o obriga a passar tão rápido quanto possível de um ponto A a um ponto B. Do mesmo modo, o monge Thich Nhat Hanh descreve uma experiência meditativa caminhando sensivelmente em um aeroporto, ou seja, um espaço Tecido, permeado por orientações de todas as ordens que ele, em sua prática de caminhar sensível, acaba por anular : Uma vez, eu estava em um aeroporto lotado. As pessoas estavam aglomeradas ao meu redor, tão perto que eu não conseguia nem andar. (...) Comecei a abrir caminho através delas, mas então parei. Eu me lembrei de que não tinha a obrigação de fazer nada. Fiquei muito relaxado porque senti que Buda estava andando, não eu. Se fosse eu, talvez não tivesse ficado tão relaxado ou compassivo assim. Logo que parei e relaxei, consegui andar livremente. O aeroporto ainda estava lotado, mas eu dei cada passo devagar, com tranquilidade e alegria.32 Por todas essas razões, não podemos nos esquecer que os regimes têm todos um caráter dinâmico e que eles são suscetíveis de interferir uns com os outros. A qualquer momento, pode ocorrer a mudança de um regime para outro. O caminhar programado em um espaço Rede pode ser interrompido pelo inesperado : uma calçada interditada por uma reforma que interrompe o percurso planejado, obrigando a improvisação, tal como ocorre no filme de Jacques Tati. Assim, buracos, degraus irregulares, raízes levantando a calçada, entre outros obstáculos, podem produzir, no caminhar programado, tropeços, mudanças bruscas de ritmo, pausas inesperadas, necessidade de rever percursos e fazer outras escolhas. Mencionemos por fim o documentário “Sob constante ameaça”, produzido pela Agência Pública (coletivo de jornalistas), que mostra mulheres andando à noite no centro de São Paulo, saindo de seus trabalhos33. Trata-se do encontro do caminhar programado que se altera parcialmente para um caminhar intencional por conta do espaço abismo produzido pela ausência de pessoas nas ruas, vazio que torna esse espaço em uma ameaça para elas. Obviamente, não temos a pretensão de esgotar todas as possibilidades combinatórias. Procuramos somente evocar algumas possibilidades para evidenciar a complexidade das relações entre regimes do caminhar e configurações espaciais. Considerações finaisPrecisamos ainda mencionar que os quatro tipos de caminhar articulam uma grande oposição de base : de um lado, com os caminhares programado e intencional, temos uma perspectiva funcional que visa ao uso do caminhar para uma determinada finalidade, automatizada ou com algum projeto específico ; do outro lado, temos um caminhar estésico no qual se articulam os caminhares acidental e sensível, privilegiando a dimensão sensível em detrimento da dimensão inteligível presente no outro eixo. A partir da elipse dos regimes de interação e sentido, chegamos à seguinte esquematizaçao :
O caminhar, mesmo sendo uma prática cotidiana aparentemente simples, possui uma variedade semiótica considerável quando analisado a partir da correlação entre regimes de interação e regimes de espaço. A formação de sentido no caminhar emerge, assim, da articulação entre o corpo do caminhante, sua prática ou sua simples utilização do espaço, que se caracterizam por modos variados de relação — previsíveis, imprevisíveis, manipulatórios ou estésicos. Ao caminhar, o caminhante ultrapassa a simples ideia de deslocamento físico : ele produz sentidos em seu ato. O espaço nunca é apenas um cenário neutro onde a caminhada é realizada. Ele participa ativamente das práticas de deslocamento. Por sua conformação, ele pode tanto facilitar o percurso, quanto impor obstáculos, ou ainda incitar a desvios ou paradas por sua configuração sensível. Mas, apesar disso, fica para o sujeito mesmo a escolha da forma específica de fazer significar o mundo, e de significar-se nele através do regime de caminhar que ele adota. A experiência corpórea, sensível e interacional do deslocamento constitui um modo de inscrição no espaço social, cultural e existencial. Caminhar é, antes de tudo, um gesto de habitar o mundo, por meio do qual o sujeito interpreta e transforma, pode-se até dizer recria o espaço vivido, enquanto carregado de sentido. Referências bibliográficasAgência Pública, Sob constante ameaça, 2018, https://www.youtube.com/watch?v=Tlz ROTM5-4M&t=. Augé, Marc, Não-lugares : introdução a uma antropologia da supermodernidade, Campinas, Papirus, 2012. Benveniste, Emile, “O aparelho formal da enunciação”, Problemas de Linguística Geral II, Campinas, Pontes, 1989. Bueno, Alexandre Marcelo, “Caminhar como uma prática semiótica”, Entreletras, 15, 2024. Certeau, Michel de, A invenção do cotidiano : 1. Artes de fazer, Petrópolis, Vozes, 2014. Coverley, Merlin, A arte de caminhar : o escritor como caminhante, São Paulo, Martins Fontes, 2014. Floch, Jean-Marie, “Você é agrimensor ou sonâmbulo? Elaboração de uma tipologia comportamental dos passageiros do metrô”, Estudos Semióticos, 19, 2, 2023. Greimas, Algirdas J. e Joseph Courtés, Dicionário de Semiótica, São Paulo, Cultrix, 1983. Gros, Frederic, Caminhar, uma filosofia, São Paulo, Ubu Editora, 2021. Hanh, Thich Nhat, A arte de caminhar, Rio de Janeiro, Harper Collins Brasil, 2021. Hjelmslev, Louis, Prolegômenos a uma teoria da linguagem, São Paulo, Perspectiva, 2013. Labbucci, Adriano, Caminhar, uma revolução, São Paulo, Martins Fontes, 2013. Landowski, Eric, Presenças do Outro, São Paulo, Perspectiva, 2002. — Interações arriscadas, São Paulo, Estação das Letras e Cores, 2014. — “Regimes de espaço”, Galáxia, 29, 2015. — Antes da interação, a ligação, São Paulo, Centro de Pesquisas Sociossemióticas, 2019. Elkin, Lauren, Flâunese : mulheres que caminham pela cidade em Paris, Nova York, Tóquio, Veneza e Londres, São Paulo, Fósforo, 2022. Petitimbert, Jean-Paul, “Visions d’espace : le vécu de l’étendue", Acta Semiotica, 9, 2025. Rousseau, Jean-Jacques, Devaneios do caminhante solitário, São Paulo, Editora Unesp, 2022. Solnit, Rebecca, A história do caminhar, São Paulo, Martins Fontes, 2016. Valzani, Sergio, Perché camminare? Sui passi dei viandanti di oggi e di ieri, Milão, Ediciclo Editore, 2025. ————— Plan Introdução1. Considerações gerais sobre o caminhar2. Os estilos do caminhar e seus regimes de sentido1. O caminhar programado : automatismo e eficácia2. O caminhar acidental : liberdade do vagar a esmo3. O caminhar intencional : a busca pelos valores4. O caminhar estésico : sensibilidade no flanar3. Entrecruzamento do caminhar com os regimes de espaçoConsiderações finais |