Supplément au débat : Actualité sémiotique de l’actualité

Presença e ausência no YouTube : a catarse comunitária e o simulacro de subversão

Luiza Eltz

PUC-São Paulo, Centro de Pesquisas Sociossemióticas

Acta Semiotica, VI, 10, 2026
DOI: 10.23925/2763-700X.2026n10.77282

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Introdução

 

Em estudos anteriores, nos debruçarmos no viver mediado por telas e pelas redes sociais1. O digital preenche as horas de um sujeito que busca no celular um catalisador para a distração, informação, curtição e, até mesmo, reflexão. Como nos foi recentemente relembrado por um estudo de Jean-Paul Petitimbert2, o usuário, ao ser cercado por um fluxo ininterrupto de conteúdos com que pode interagir em diversas plataformas, passa a ter dois caminhos marcadamente patêmicos : se tornar deveras ansioso e ficar com receio de perder a próxima informação excepcional ou se distanciar das plataformas com o receio de ser afogado pela maré digital. O primeiro caso corresponde a uma síndrome denominada Fear of Missing Out (FOMO), “o medo de ficar de fora”, o segundo à “alegria de ficar de fora”, a Joy of Missing Out (JOMO). Ambos os posicionamentos — querer estar sempre conectado em estado de alerta, ou adotar uma postura distanciada dessa dinâmica ansiógena — demarcam uma presença, mesmo que mecânica, diante da rede social, uma ação que sinaliza um posicionamento do ser : de estar distante ou próximo a uma lógica interacional convocada por determinada plataforma.

1 L. Eltz, Enunciação nas transmissões ao vivo do UOL News no YouTube e os simulacros de reciprocidade, Dissertação (Mestrado em Comunicação e Semiótica), PUC, São Paulo, 2024. “Webjornalismo e escuta da atualidade : da proximidade à bajulação no YouTube”, Acta Semiotica, IV, 8, 2024.

2 J.-P. Petitimbert, “L’actualité : entre tension et interaction”, Acta Semiotica, IV, 8, 2024.

A esfera digital possibilita com que o sujeito se sinta compartilhando um espaço próximo e um simulacro de reciprocidade com os criadores de um determinado canal, conteúdo e até a própria narrativa. O usuário está cercado de um fluxo ininterrupto e tenta conviver com a velocidade da atualidade recorrendo ao clique incessante para não perder a próxima novidade que irá aparecer em sua tela, a síndrome da FOMO. Na contramão, a síndrome da JOMO ocorre caso o sujeito não queira comparecer a esse fórum de discussão online e cria estratégias para se blindar disso : evade alguma rede social, evita olhar transmissões ao vivo, utiliza de filtros de busca em suas plataformas para que certos conteúdos, temas e até mesmo perfis não o atinjam. Essa ausência, para além de auxiliar, teoricamente, a saúde mental e emocional dos cidadãos, assim como afinar o senso crítico dos indivíduos, está quebrando possíveis hierarquias entre big techs e seus usuários ? Qual o efeito possível da ausência do sujeito na rede social : o vácuo deixado por ele pode empoderar ou enfraquecer a dinâmica interacional da plataforma ?

Com base nessas inquietações, o artigo se propõe em analisar uma rede social já abordada em pesquisas prévias, o YouTube, para se debruçar a respeito da presença e sobretudo das potencialidades da ausência do usuário na plataforma e suas respectivas síndromes, ou seja, a FOMO e a JOMO. A ideia é destrinchar os posicionamentos do sujeito no meio digital de forma a agregar aos achados de Jean-Paul Petitimbert reflexões a respeito da suposta subversão do usuário no contrato pré-estabelecido com o YouTube.

 

1. A presença como catarse comunitária

 

Em um artigo prévio, ao questionarmos o porquê da rede social ser uma das principais do mundo, chegamos à conclusão de que parte do sucesso da plataforma está ancorada na comunidade : o usuário percorre a plataforma de modo a cada clique o levar a se reunir com um grupo que consome os mesmos tipos de vídeos3. É uma busca do desfrutar do estar junto em que os usuários se sentem potencializados para criar vínculos com os outros, consigo mesmo, com o detentor de um canal, com a narrativa e com os processos mediados pela plataforma.

3 “Webjornalismo e escuta da atualidade”, art. cit.

Desse modo, percorrer a plataforma é ser posicionado, por meio de um comportamento mecânico baseado em algoritmos, nas chamadas “bolhas sociais” : um grupo de usuários que têm específicos gostos, valores e predileções de navegação do conteúdo no YouTube. O clique não é solitário, é um caminho para se sentir cercado por uma multidão que reitera o parecer do sujeito. Uma opinião, portanto, se torna um consenso na plataforma. Ora, se o usuário apenas consome vídeos que ressoam uma determinada visão de mundo, essa interpretação se torna não apenas majoritária, mas como uma “verdade” absoluta, característica dos discursos na internet4.

4 Cf. D.L.P. Barros, “Estudos discursivos da intolerância : o ator da enunciação excessivo”, Cadernos de estudos linguísticos, 58, 1, 2016, p. 12.

Há a construção de um simulacro de autoridade do usuário que se sente competente no interpretar e no sentir diante dos fatos do mundo, mediados pelas esferas digitais. A navegação constante dentro das ações algoritmicamente programadas para cada usuário proporciona um espaço de intimidade, proximidade e até mesmo de autoria : a narrativa a ser transmitida por um canal é incorporada e considerada um auto-discurso daqueles que a estão acompanhando.

O elo da comunidade, fortalecido pelo YouTube e manejado pelos criadores de conteúdo na página, tem como potencialidade de desembocar em uma catarse comunitária. O efeito catártico é produzido ao encontrar ressonância no que é transmitido por aquela rede, ao sentir que a vivência da atualidade é compartilhada por quem está à frente das câmeras e, também, pelos usuários que acompanham a transmissão. A rejeição, a adoração, a revolta, diante de certos acontecimentos passam a se tornar comunitários, compartilhados entre uma comunidade que vê na narrativa circulada na plataforma uma reverberação dos seus pensamentos.

Esse fato de o sujeito se manter atualizado na rede social está estreitamente relacionado com uma questão identitária ancorada em uma lógica mercantil. Por conta disso, a Fear of Missing Out se torna uma síndrome tão disseminada : os indivíduos necessitam estar conectados nas redes sociais a todo o tempo. Como apresentado por Petitimbert,

 

essa síndrome constitui uma forma de ansiedade desenvolvida sob a pressão de estímulos sociais, midiáticos ou algorítmicos, caracterizada pelo receio constante de perder uma notícia relevante ou qualquer outro acontecimento atual suscetível de oferecer uma oportunidade de comentar, compartilhar, “curtir”, clicar, republicar, entre outros5.

5 J.-P. Petitimbert, art. cit., p. 133. Trad. nossa.

Isto posto, propomos complexificar o que o autor traz à tona : com a síndrome da FOMO não se trata apenas de uma ação frenética para o usuário se manter informado e evitar ficar excluído de algum assunto que interesse. É possível apontar que a FOMO está associada à existência mesma do sujeito que tenta se sustentar por meio da coletividade. Não é apenas entretenimento, é identidade. A comunidade passa a compartilhar um ambiente vivo e articulado, sensível e significante, congruente no mundo das ideias e do sentir. Trata-se de uma busca de identidade, uma construção do eu mediada pelo YouTube.

A comunidade fornece segurança para o sujeito que estabelece suas interações com o outro e, principalmente, consigo mesmo protegido por uma tela e por algoritmos responsáveis por ressoar apenas aquilo que é convergente. A narrativa, mesmo que seja pautada em um simulacro de reciprocidade e em uma lógica coercitiva da plataforma, conforta o sujeito e o abraça de forma a ser peça fundamental para que ele se enxergue a partir dos conteúdos que consome e os ambientes digitais no qual navega. Ficar sem acessar a rede, portanto, é ficar sem estar em contato com o que acredita ser si próprio. Por consequência, evitar pegar no celular, não interagir em fóruns digitais em um determinado canal no YouTube, não gera apenas uma ansiedade de estar desinformado : proporciona um risco de crise, por assim dizer, existencial.

 

Por conta disso, há uma dependência do celular e da atualização constante como apontado por Petitimbert : “A FOMO leva a uma dependência das Tecnologias da Informação e da Comunicação e a um vício na conexão permanente, amplamente alimentados por todo tipo de notificações que atraem a atenção dos usuários a todo momento”6. Os algoritmos, evidentemente, auxiliam de modo decisivo na tarefa de reforçar esse aspecto. Por isso que com o decorrer do tempo e o fluxo massivo de informações na rede social, estar atualizado se torna deveras urgente e imprescindível. Isso leva uma consequência importante. Viver uma existência permanentemente mediada por telas pode arrastar o risco para que os destinatários da plataforma desistem de construir suas próprias trajetórias e se deixem iludir de que as telas podem se tornar uma metonímia da vida e da própria experiência do ser.

6 J.-P. Petitimbert, art. cit., p. 133. Trad. nossa.

Pensemos num exemplo popular no Brasil, principalmente no início do ano : se o usuário é um telespectador assíduo do Big Brother Brasil7, ele irá utilizar da sua comunidade para se informar sobre os recortes mais polêmicos, para rir dos memes criados e para manter vivo o vínculo que o leva a consumir determinado conteúdo. E até mesmo, por estar tão conectado com a narrativa ali retransmitida, ficar com o receio de não estar na própria casa e, assim, perder a oportunidade de vivenciar a experiência que os participantes gozam. Ou lamentar não ter ficado a madrugada toda acompanhando as câmeras do programa e compartilhando mensagens. O vínculo construído pela comunidade é tão forte que há a possibilidade de projeção de um sujeito que se vê no outro, que muitas vezes gostaria de ser o outro e até mesmo se sente como o outro.

7 O Big Brother Brasil é considerado o maior reality show do país ().

Vale ressaltar que essa síndrome não é apenas do digital, não se fortalece e se reproduz apenas na interação com determinada plataforma. Como aludimos, trata-se de uma questão existencial : o indivíduo navega de maneira obsessiva nas redes sociais de modo a reforçar sua identidade. É um elo comunitário que ultrapassa as fronteiras da internet e se reflete na convivência cara a cara. É o motivo por qual as pessoas conseguem estabelecer o diálogo, manter conversas em diferentes espaços sociais e enxergar a vida por meio da integração e circulação no ambiente digital : uma forma de acompanhar a atualidade e encontrar um sentido, uma razão de ser pela rede social — condição que Landowski denominou de “Conversa Geral”8 garantindo a convivência em sociedade e a construção dos sujeitos que apoiam sua identidade na consumação.

8 E. Landowski, “Suivre l’actualité, pourquoi ? Sens et insignifiance d’une pratique”, Acta Semiotica, IV, 8, p. 26.

O desfrutar do estar junto, nesse caso, tenta alçar vôos para além da digitalidade. O sujeito não quer arriscar a frustração de não ser aceito em comunidade. Prefere ter suas ideias validadas e a possibilidade de sua interpretação do mundo vista como “verdadeira”. Entretanto, um sujeito reforçado pela lógica do YouTube passa a tentar procurar tamanha programação na vida que o resultado previsível é apenas uma outra forma de frustração. Viver em sociedade é encontrar no divergente uma possibilidade de debate e crescimento do ser, é estar aberto à vida e ser o próprio destinador de si. Mas o risco da vida assusta, intimida e leva a buscar no meio digital uma zona de conforto baseada na convergência, na facilidade e na reiteração. De tudo isso resulta que a FOMO auxilia em enriquecer as big techs e enaltecer influenciadores do marketing digital que passam a ter em seu encalço cidadãos, usuários, que pensam que vivem a vida em sua totalidade com os outros e, principalmente, pelo o que é mediado pelas telas.

Há uma possibilidade de se afastar da Conversa Geral ? De ir para um caminho mais saudável que evite a síndrome da FOMO ? Que estabeleça interações mais verdadeiramente intersubjetivas, próximas e que priorizam a disponibilidade do sujeito na vida ? Para tentar responder, é necessário pensarmos num posicionamento, em teoria, oposto ao que apresentamos nesse tópico : a ausência do usuário na rede social.

 

2. A ausência do usuário : simulacro de subversão

O que pode ser a ausência do usuário no YouTube ? Em primeiro lugar, o usuário estar ausente pode indicar que se negou adentrar na rede social e obedecer os termos e condições para navegação na plataforma. É um usuário que inexiste na circulação de conteúdos e que não será posicionado na dinâmica interacional que visa o fortalecimento do desfrutar do estar junto e da comunidade. Em outras palavras, esse sujeito é aquele que se nega a firmar um acordo previsto com o destinador para prosseguir na trajetória proposta.

 

Há ainda uma busca da ausência por meio da negativa de cumprir certas cláusulas no contrato com o destinador e nos atos que foram previstos ao sujeito. Ou seja, o usuário frequenta a rede social, mas decide não “vestir totalmente a camisa” da empresa. O YouTube delega a cada um dos seus usuários — sejam eles donos de canais ou apenas sujeitos que consomem um determinado vídeo — determinadas ações que o auxiliam. Para um influenciador ganhar dinheiro na plataforma é necessário que ele publique conteúdos em um período constante, utilizando de determinadas hashtags, com o uso de uma thumbnail atrativa, com o auxílio da promoção de transmissões ao vivo para que a comunidade possa se comunicar por uma linguagem verbal escrita pelo chat do programa, entre outras funções9. Caso esse usuário que almeja o sucesso do seu canal não faça isso, uma ação previamente prescrita a ele, ele não será banido da rede social mas será sancionado negativamente e, provavelmente, não colherá os frutos do seu trabalho, não desfrutará dos privilégios de uma comunidade em conexão. O mesmo vale para aquele usuário que pretende apenas percorrer o YouTube para se manter atualizado : caso ele não compartilhe, comente ou curta algum vídeo, é impossível que ele consiga atingir a comunidade e a suposta união catártica que o aguarda. É esperado que os atos sejam cumpridos para que se atinja o êxito. Ações milimetricamente projetadas de maneira algorítmica para estimular o vício no YouTube.

9 Cf. L. Eltz, Enunciação nas transmissões ao vivo, op. cit.

A escolha do usuário em se ausentar em alguns atos considerados primordiais na plataforma, entretanto, são escolhas marcadas ainda por uma presença na rede social : abrir a home do YouTube é uma impressão a ser marcada na métrica da página, mesmo que ele se recusa a prosseguir com o clique ; e assistir um vídeo sem utilizar do chat ou espaço dos comentários é ainda acumular uma visualização. É a presença de um usuário que marca seus atos pela flexibilização dos atos que ele deveria programaticamente cumprir. Não há uma performance completa e, dificilmente, haverá uma sanção positiva. Porém, um usuario que busca se ausentar deste modo, na verdade ainda está presente. Uma tal forma de distanciamento, antes do que ausência, é marcada por uma presença que flerta com a subversão, mas nunca chega às vias de consumar o ato. Não há uma recusa categórica e sim um simulacro de autonomia diante do poderio das big techs, uma falsa sensação de controle. Mas isso não passa de uma miragem : uma margem fixada pela própria plataforma delimita as ações a serem feitas dentro da rede social de tal modo que o usuário se sinta autorizado em declinar o convite e desbravar a rede social em busca de outros conteúdos.

A tentativa de se distanciar do acordo apresentado pela rede social, esse posicionamento, que tende a se disjuntar do objeto de valor da plataforma, do desfrutar do estar junto, pode ainda buscar evitar a dinâmica massiva da circulação dos conteúdos a fim de evitar danos à saúde emocional do cidadão. Essas são algumas das características da outra síndrome abordada por Petitimbert, a JOMO (Joy of Missing Out) em que o fluxo digital satura o sujeito que passa a (tentar) desenvolver um mecanismo de defesa à base da indiferença e da dessensibilização :

 

Os acontecimentos já não são percebidos como exigindo uma reação instantânea e efêmera. Pelo contrário, há a ideia de que a informação atual pode ser relativizada e, ou bem ignorada, ou então apreendida com o distanciamento que permite considerá-la de forma mais fria, selecioná-la e integrá-la ao próprio ritmo, num tempo menos frenético.10

10 J.-P. Petitimbert, art. cit., p. 134. Trad. nossa.

Aqui, novamente, não ocorre uma ausência do usuário e sim um afastamento da dinâmica projetada. O sujeito não evade a rede, ele flexibiliza os atos programados para ele e atenua o consumo de vídeos naquela plataforma. É uma ação reativa e contrária ao vício que se propunha coercitivamente prender os usuários. Evidentemente, essa síndrome enfraquece o intuito do destinador do YouTube que tenta capturar cada usuário mas não o afasta por completo da dinâmica interacional da plataforma.

Há, todavia, alguma possibilidade de se ter prazer em não fazer parte de uma comunidade digital que, como sabemos, é também projetada para o face a face ? Há a possibilidade do sujeito se manter realizado se distanciando do celular (visto quase como parte do corpo) ou dos fóruns de discussão que cada vez mais presentificam as esferas digitais e ditam debates na vida quotidiana ? É um risco para o sujeito se manter em uma posição de resistência diante do poderio das big techs. Será possivel ficar solitário, adotando um distanciamento consciente do que é mediado pelas telas ? Na convivência com os indivíduos que, em sua maioria, se pautam na Conversa Geral, as pessoas que buscam se afastar da dinâmica das plataformas podem ser excluídas, também, diante do outro. O funcionamento da “bolha social”, de fato, opera também nas convivências presenciais que tendem a atrair e procurar apenas o que é comum. De tal modo que inclusive os adeptos à JOMO procuram os similares para encontrarem força para seguir. É um desfrutar do estar junto no aspecto do desfrutar estar distante de uma dinâmica coercitiva, assumindo os possíveis riscos sociais e existenciais diante dessa atitude.

O prazer de não se identificar com uma lógica que busca se encontrar nas redes sociais, iria na direção de encontrar um sentido por meio de outras vivências, desconexas da presentificação do imediatismo e relevância da vida mediada por telas. Deste ponto de vista, parece mais do que um simulacro de subversão, é uma promessa de uma renúncia que elevaria o estado de alma do sujeito e o colocaria em um espaço social diferente. Há risco, sendo positivo ou negativo, do sujeito tentar impôr rédeas de sua própria vida, mesmo com todas as consequências presentes nessa escolha.

É possível indagar, ainda, se há possibilidades de graus de ausência na rede. Uma pessoa que acessa a plataforma uma vez ao dia, adepto a uma síndrome associada à JOMO, em comparação com outro indivíduo que acessa a cada hora, vinculada à FOMO, está menos presente no YouTube ? De certa maneira, não. Ambos estão ainda consumindo conteúdos, aceitando os termos de condição da plataforma. Ambos estão ainda cadastrados na plataforma. Ambos têm home pages personalizadas. Com seu poderio, as big techs ainda conseguem capturar informações a respeito deles para que possam tentá-los a voltar mais vezes na plataforma. Os dados, uma vez compartilhados, estão salvos. A diferença, portanto, está pautada na síndrome, no ímpeto, na intencionalidade, do sujeito tentar se afastar ou tentar se aproximar da circulação ininterrupta da plataforma. O ônus ou bônus do acesso contínuo, ou restrito, é exclusivamente uma consequência do usuário. Evidentemente, a quantidade de cliques e acessos explicam o sucesso da plataforma, mas estar menos presente não indica não frequentar e sim, apenas, que o sujeito está moderando o acesso por livre e espontâneo risco de não ficar conjunto ao objeto de valor apresentado pelo YouTube. Nesta lógica, não há ausência : ou o usuário está presente ou ele flexibiliza seus atos na rede. Ambas as atitudes incentivam ou desincentivam as síndromes da era digital, o receio ou a alegria de ficar de fora. As duas são associadas com reações ao fluxo massivo das plataformas e se pautam, primordialmente, na interação do sujeito com uma rede social.

Além disso, a sanção das ações associadas com as duas síndromes colidem com uma sanção negativa. A FOMO indica que o sujeito já será sancionado negativamente. Ele nunca estará apto de consumir todas as possíveis atualidades a respeito de algum conteúdo que o cative. É uma fórmula ansiógena que tem como efeito apenas abalar os estados de espírito do sujeito que tenta buscar na comunidade o alento que a mesma prometeu. Em comparação, a JOMO, pelo usuário tentar se afastar da rede social, já indica uma ruptura do contrato com o YouTube e, consequentemente, uma performance frustrada em busca do desfrutar do estar junto. E ainda um risco para que na convivência face a face esse seja rotulado como um estranho, o outsider, alguém que não vale ser incluído em fóruns de discussão.

A “alegria de ficar de fora”, portanto, não é um sinônimo de ausência na rede social. Pelo contrário, a recusa de ser tomado pela necessidade de consumo dos conteúdos online se caracteriza por uma ação combativa do sujeito que reconhece a presença intoxicante, inoportuna de determinado fluxo informacional nesta esfera e tenta se pautar pelo distanciamento. O usuário passa a se afastar das redes sociais, do vício do clique imperdível, para interagir com o que é mediado pelos celulares de uma maneira menos frenética e menos sensacionalista. Essa ação tem por objetivo o prazer pela distância, um espaço que é mensurável, palpável e suscetível de ser apreendido. Sob essa ótica, ambos são atos previstos para o sujeito e denotam uma marcação espacial e actancial diante das plataformas. Todavia, ao passo que o adepto da FOMO aceita o contrato e atua de maneira a reforçar uma lógica viciante, aqueles que experienciam a alegria de ficar fora assumem uma forma de combate e cumprem um ato social minimamente subversivo.

 

Conclusão

A presença no YouTube está centrada na coletividade e na capacidade de compartilhar catarses comunitárias diante do que é mediado pelas telas. Essa sensação intensa torna-se uma prescrição para que esse reconhecimento identitário diante da vida seja reiterado constantemente. Por esse motivo, a síndrome da FOMO é a grande característica da navegação nas redes sociais : não conferir o que está circulando, o que está sendo atualizado com e para a comunidade do YouTube, é estar suscetível a se perder da massa que ajuda a conferir unidade para a existência de cada um nas redes sociais. A capacidade de interlocução, proximidade e reciprocidade é tamanha ao ponto de não apenas as pessoas acharem sua força na comunidade como, através delas, se sentirem vivenciando algo único, uma ruptura no cotidiano. O que é gravado e compartilhado no YouTube não é uma narrativa terminada e sim é experienciada a cada momento. É uma dinâmica interacional que agrega memória, opinião e ação.

Por isso que muitos dos sujeitos atingidos pelo vício das redes e, consequentemente, a síndrome da FOMO, passam a ter seus alicerces para a Conversa Geral nas plataformas. Para além de uma busca da identidade, há um desejo de repetir e reiterar a dinâmica viciante das redes sociais no dia a dia. Há a recusa do divergente, do outro e, também, do risco. Há o desejo pelo controle, pela previsibilidade, pelos prazeres do consumo. E, consequentemente, há a angústia de um ser que acha que o compreendimento da vida está na próxima página. É um simulacro que passa a ofuscar a existência.

A JOMO, em contrapartida, por mais que demarque uma escolha que, reativamente, passa a se tornar mais distante e menos impactada com o fluxo informacional, ainda participa na mesma dinâmica. Acessar menos determinada plataforma não torna o sujeito ausente no YouTube. Apenas o torna flexível diante da rede social e, ainda, um pouco subversivo. Há um prazer em se distanciar, mas não há para onde fugir. A JOMO constitui, em suma, uma busca em priorizar outros tipos de relacionamento, outras formas de informação e outras formas de se manter vivo. Essa flexibilização, essa tentativa de distanciamento indica a busca de um caminho para viver uma vida que não seja mediada por telas e que não posicione grandes empresas de tecnologia como detentoras do entendimento do mundo, da conexão com o outro. É um caminho pragmático para um indivíduo que sabe a dificuldade que é se afastar da atualidade e das plataformas, um estilo de vida conforme o qual se busca retomar o protagonismo de sua interação com o mundo a fim que o sentido da vida não seja ditado unicamente pelos algoritmos.

 

Obras citadas

Barros, Diana Luz Pessoa de, “Estudos discursivos da intolerância : o ator da enunciação excessivo”, Cadernos de estudos linguísticos, 58, 1, 2016.

Eltz, Luiza, Enunciação nas transmissões ao vivo do UOL News no YouTube e os simulacros de reciprocidade, Dissertação (Mestrado em Comunicação e Semiótica), PUC, São Paulo, 2024.

— “Webjornalismo e escuta da atualidade : da proximidade à bajulação no YouTube”. Acta Semiotica, IV, 8, 2024.

Landowski, Eric, “Suivre l’actualité, pourquoi ? Sens et insignifiance d’une pratique”, Acta Semiotica, IV, 8, 2024.

Petitimbert, Jean-Paul, “L’actualité : entre tension et interaction”, Acta Semiotica, IV, 8, 2024.


Résumé : L’article cherche à approfondir la compréhension des syndromes opposés de la « peur de manquer quelque chose » et du « plaisir de manquer quelque chose » sur YouTube (Fear of Missing Out, FOMO vs Fear of Missing Out, JOMO). Comment devient-on un usager présent — ou absent — sur cette plateforme ? Peut-on, et jusqu’à quel point, s’en distancier ? La participation à des catharsis collectives vécues moyennant une présence constante sur le réseau intègre les usagers dans des communautés et remédie à leur solitude, ce qui ne cesse de renforcer la « FOMO » et tend à exclure la « JOMO ». Certains usagers s’efforcent néanmoins d’assouplir les contraintes qui leur sont imposées par le réseau : tentative de retour à une forme d’auto-destination qui constitue un défi face aux big techs.

Mots-clefs : actualité, algorithme, FOMO, JOMO, réseau social, YouTube.

Resumo: O artigo pretende complexificar as síndromes da FOMO (Fear of Missing Out) e JOMO (Joy of Missing Out) e suas respectivas dinâmicas interacionais no YouTube a partir da pergunta norteadora: como o sujeito pode se tornar um usuário presente ou ausente na plataforma ? É possível apontar que o sujeito apoia-se na comunidade para evocar catarses coletivas que respaldam a existência do indivíduo como um ser dotado de razão e, principalmente, não solitário. A importância desse aspecto incentiva para que haja a concretização da FOMO, em que o sujeito usa a comunidade para projetar suas vivências. Por outro lado, o usuário não consegue se ausentar do YouTube por conta do poderio da programação da plataforma. Ele tenta, como a síndrome da JOMO, flexibilizar os atos previstos a ele. Isso indica um caminho pragmático para a tentativa da retomada da auto-destinação da vida e, ainda, demarca um desafio contra as big techs.

Abstract: The article aims to complexify the syndromes of Fear of Missing Out (FOMO) and (oy of Missing Out (JOMO), as well as their respective interactional dynamics on YouTube, based on the following guiding question : how can the subject become a present or absent user on the platform ? It can be argued that the subject relies on the community to evoke collective catharses that validate the existence of the individual as a rational being and, above all, as someone who is not alone. The importance of this aspect encourages the concretisation of FOMO, in which the subject uses the community to project their lived experiences. On the other hand, the user is unable to withdraw from YouTube due to the power of the platform’s programming. In line with the JOMO syndrome, the user attempts to flexibilize the actions prescribed to them. This points to a pragmatic path toward reclaiming self-determination in life and also delineates a challenge to big tech companies.

Auteurs cités : Diana Barros, Eric Landowski, Jean-Paul Petitimbert.

Plan :

 

Introdução

 

1. A presença como catarse comunitária

 

2. A ausência do usuário : simulacro de subversão

 

Conclusão

Recebido em 10-03-26

Aceito em 10-04-26

 

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